segunda-feira, 30 de junho de 2008

Daguerre e Florence: os outros Pais da Fotografia


Graças a Nicéphore Niépce, o homem do século XIX poderia finalmente gravar os pequenos recortes de seu cotidiano por meio das fotografias. No entanto, isso não queria dizer que se tratava de um processo barato ou rápido: além de caras, boas fotografias precisavam de um bom tempo de exposição solar e total imobilidade da cena ou das pessoas nela retratadas. O invento já havia sido aperfeiçoado pelo franco-brasileiro Hércules Florence, o qual havia experimentado obter imagens utilizando nitrato de prata sobre papel, conseguindo bons resultados. Contudo, Florence nunca patenteou sua invenção ou apresentou-a devidamente aos grandes cientistas da época, perdendo assim, seu destaque como um dos pais da fotografia. Sua única herança, talvez, seja o nome do invento, o qual ele batizou em seus diários como “photographia”.

O terceiro grande nome a fazer experimentos com sucesso no processo de captura de imagens foi o francês Louis Daguerre. Pintor, inventor e colaborador de Niépce, criou o daguerreótipo em 1839. No processo, a imagem era obtida por meio de haleto de prata e vapor de iodo expostos em uma superfície espelhada e polida. Tal combinação acabava delinear as partes claras e escuras do tema retratado em questão. A revolução desse invento foi a diminuição de tempo necessário para se tirar uma fotografia – que poderia chegar a incríveis dez minutos! – e o barateamento da fotografia.

Após ser declarado pelo governo francês como um invento de “domínio público” e “um presente para toda a humanidade”, explode a primeira febre da fotografia, ou melhor, do daguerreótipo. Mais acessível e requerendo um menor trabalho, os retratos se proliferam nos Estados Unidos e França, em menor escala na Inglaterra e atinge até mesmo o Japão e outros países do Oriente. O conteúdo das fotos se diversificou: desde retratos familiares até produção de material pornográfico. Entretanto, o daguerreótipo era também um material frágil que exigia um enorme cuidado para ser preservado. As imagens que ainda hoje sobrevivem são protegidas por cápsulas de vidro para evitar sua oxidação

Louis Daguerre - Boulevard du Temple
(1838)
(clique na imagem para ampliar)

Entre as muitas fotografias de Daguerre, “Boulevard du Temple” é uma de suas mais famosas. Procurando testar os limites de sua invenção, ele escolheu fotografar o lugar, próximo ao centro de Paris, justamente por ele ser um dos mais movimentos da cidade – como pode se ver pela larga avenida e pela enorme quantidade de edifícios e estabelecimentos comerciais. No entanto, como já foi mencionado acima, o processo de obtenção de imagem levava vários minutos para ficar pronto e era necessário que o objeto estivesse imóvel para que fosse retratado com perfeição.

No entanto, devido ao tamanho da paisagem e ao intenso movimento da rua, foram necessários aproximadamente dez minutos para que a imagem ficasse pronta. Ironicamente os carros e pessoas acabaram por não aparecer na imagem dando a impressão de uma rua vazia com exceção de uma pessoa (canto inferior esquerdo apoiado em um dos postes). Supõe-se que este homem havia parado para ter suas botas engraxadas por um trabalhador de rua e, por estar imóvel por alguns minutos, acabou sendo registrado na foto. Este homem sem rosto talvez nunca soube, mas foi uma das primeiras pessoas do mundo a serem registrada em um daguerreótipo. Por um instante, ele e o engraxate foram as duas únicas pessoas que estavam no Boulevard du Temple. Um instante que entrou para a história...


Nenhum comentário: